domingo, 11 de dezembro de 2011

PACIFICAÇÃO FAZ DISPARAR VALOR DOS IMÓVEIS NA ROCINHA

A chegada da segurança à favela transforma imediatamente a economia do local. A pesquisa “UPP e a economia da Rocinha e do Alemão: do choque de ordem ao de progresso”, da FGV, constata que depois da instalação de Unidades de Polícia Pacificadora os aluguéis têm valorização 6,8% superior à do ‘asfalto’. Antes das UPPs, os aluguéis eram 25% mais baixos nas áreas de favela – quando comparados a imóveis de características semelhantes na cidade formal. O mercado imobiliário é onde ocorre a transformação mais rápida de valores, e, por isso, um bom termômetro da economia da favela.

A dois dias de a ocupação policial na Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, em São Conrado, completar um mês, moradores das três comunidades carentes e do asfalto veem a valorização imobiliária ferver feito as temperaturas do verão. No Vidigal, um terreno com 10 casas, no alto do morro, está sendo vendido por R$ 1 milhão. Em São Conrado, empreendimento recém-lançado no espaço onde ficava uma concessionária de carros já vendeu 90% dos apartamentos em 48h.

A disparada dos preços é o cenário mais visível dos benefícios que a expulsão do tráfico levou a mais de 130 mil pessoas que vivem na região. Da janela de casa, colocada à venda no alto do Vidigal, a dona de casa Lúcia Rodrigues Cabral, 47 anos, e filha, a estudante Isabela Cabral, 20, enumeram outros benefícios, além da oportunidade se mudar para uma casa melhor, ‘perto do asfalto’: desde o dia da operação policial, em 13 de novembro, não ouvem barulho de fogos na favela.

“Os fogos anunciavam a chegada da polícia. Isso acabou. O sonho da paz aconteceu. Agora, planejamos mais mudanças para essa nova vida”, conta Lúcia, contemplando uma das mais belas vistas do Rio. “Vamos nos mudar, mas, sair do Vidigal, nunca”, completa a estudante.

Sem o poder do tráfico, moradores reconquistaram, além do território, a liberdade, o que pode ser percebido quando são analisados os números de atendimento na UPA da Rocinha. Comparando outubro e dezembro, há aumento de 20% no atendimento de casos de menor gravidade após 22h, o que, segundo médicos na unidade, não acontecia antes da pacificação.
O mercado imobiliário na Rocinha é intenso. Muitos dos que vão trabalhar no morro acabam por se estabelecer por lá. Foi o caso dos funcionários das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e de muitos vendedores das lojas localizadas dentro da favela, que não são poucas. A imobiliária Passárgada não faz negócio com qualquer interessado. “Não alugamos para gente informal”, diz o corretor Santos. Ele pede os documentos e levanta a ficha no SPC e Serasa. Isso já foi motivo de problemas. “Passamos por repressão por não querer alugar para algumas pessoas. Mas como nasci e fui criado na Rocinha, muita coisa deixou de acontecer comigo”, afirmam Santos, referindo-se a represálias dos criminosos ao negar moradias a traficantes.

O terreno de R$ 1 milhão no Vidigal, segundo os corretores da MS Imobiliária, pode render ainda mais. “O dono pensa em desmembrar as casas. Separadas, podem render o dobro”, avalia o corretor local, Jonas Barcellos.

Na Rocinha, um imóvel pode custar até R$ 130 mil, mesmo em becos ou vielas. “Os preços aqui no bairro, no asfalto, subiram 40%, já no dia seguinte à ação policial. Vivemos realmente um renascimento, após anos de desvalorização”, conta o presidente da Associação de Moradores de São Conrado, José Britz.

Tais valores variam conforme o local e o tamanho da casa. Santos explica que a Rocinha é dividida em três terços: o espaço “dos ricos”, moradores da Estrada da Gávea; da classe média, com imóveis um pouco maiores que a média, cujos donos costumam ter casa na região dos lagos e filhos em escolas particulares; e a Rocinha classe C, composta por pessoas que moram de aluguel. Os preços variam bastante. Um quarto e sala, até antes da ocupação, podia sair por 25 mil reais. Já quando a casa tem dois quartos - coisa rara na Rocinha - o valor chegava a 80 mil reais. Os aluguéis correspondem a 1% do valor do imóvel.

Fila de espera: Aluguel custa R$ 2 mil por mês

A MS Imobiliária é a única que oferece esse tipo de serviço no Vidigal. E por lá já tem até fila de espera para quem quer alugar ou comprar um imóvel. “Temos 18 casas disponíveis e uma fila de 14 pessoas que querem comprar uma casa e mais 34 pessoas dispostas a alugar. Mas, para locação, só temos notícia de um apartamento”, explica o corretor Marcos Vinícius Rocha.

Para alugar o apartamento disponível, o futuro inquilino terá que desembolsar quase R$ 2 mil por mês. Já na Rocinha, quem procura aluguel vai precisar de mais sorte. Por lá, segundo corretores de três imobiliárias da comunidade, não há mais casas.

“Temos fila de espera por aqui também e há uma dificuldade grande em encontrar imóveis para a locação. Por aqui, os imóveis já haviam sido valorizados com as obras do PAC. Agora, aumentou mais”, explica o corretor Fábio Ricardo, da Rocinha.

Investimentos
Moradores festejam melhorias, mas aguardam pelas grandes obras

Na expectativa por mais melhorias, os moradores da Rocinha aguardam, agora, a nova fase do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, que terá um total de investimento de R$ 700 milhões. As obras de complementação do PAC 1 da favela, que estão paradas, também devem ser retomadas, para a construção, por exemplo,do plano inclinado com três estações, ligando o acesso principal, na Autoestrada Lagoa-Barra, ao Túnel Zuzu Angel.

A Rocinha também vai ganhar um mercado público com três andares, 49 lojas e praça de alimentação no Largo do Boiadeiro. Já no Vidigal, a esperança é que a comunidade também receba intervenções do PAC, o que ainda não está previsto.

Moradores da região também comemoram a primeira festa de Réveillon na Praia de São Conrado, como antecipou dia 2. As atrações ainda não foram definidas pela prefeitura. “Torcemos ainda pela construção do teleférico ligando a Rocinha ao Vidigal”, diz o corretor Jonas Barcellos, ex-presidente da Associação de Moradores do Vidigal.


Números

446 Kg de cocaína foram apreendidos na ocupação, assim como mais de 5 mil kg de maconha e mais de 6 mil pedras de crack, além de ecstasy e cheirinho da loló

259 armas de grosso calibre foram apreendidas — 91 delas, fuzis. Além de 239 explosivos e mais de 60 mil balas de diversos calibres

70 criminosos foram presos em um mês de ocupação. Ao todo, 11 menores foram apreendidos e outros oito criminosos, mortos

64 mil é o número de veículos que passam pelo Túnel Zuzu Angel aos domingos. No dia da operação, foi reduzido para 36 mil.

1.903 pessoas, com casos de baixa complexidade, foram atendidas na UPA, após 22h, nos primeiros dias de dezembro. Em outubro, foram 1.602 atendimentos.

90% dos apartamentos de um empreendimento foram vendidos em 48h. Mais três prédios comerciais serão construídos em São Conrado.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Batalhão de Choque com nova "armadura" para a Copa do Mundo

Um tenente do Batalhão de Choque coloca uma armadura articulada, com proteção e amortecimento, capaz de isolar o impacto de pancadas até de barras de ferro. O tenente-coronel Fábio Souza, o zero-um da tropa, pega um bastão e parte para cima do policial. O teste é feito pelo novo comandante, que assumiu o Choque há dois meses, depois de 15 anos no Bope. O tenente treme. A armadura do combatente do futuro, não.

Bati com vontade e não quebrou. Parece uma armadura robotizada, mas com mobilidade — aprova Fábio Souza, num rigoroso “teste científico”, na base da força bruta.

Três desses protótipos, feitos com polímero, uma espécie de borracha resistente, e placas de E.V.A., que dá rigidez e resistência, foram doados pela Compagnies Républicaines de Sécurité (CRS), a polícia nacional francesa, que ministrou um curso de duas semanas para os policiais do Choque, ensinando técnicas de gestão em tumultos em grandes eventos. O primeiro passo para formar uma espécie de policial do futuro no Choque foi dado.

O material está servindo de modelo para a fabricação de armaduras, com previsão de entrega até o fim de 2012. De acordo com o Choque, duas empresas abriram licitação para fabricar os trajes, que devem fazer parte do uniforme da tropa na Copa do Mundo. A Secretaria de Segurança (Seseg) informa que “o Estado faz uma tomada de preços para verificar custos, mas não há nada que indique a compra”. Segundo a nota, a negociação prevê a aquisição de pelo menos 1.260 “equipamentos antitumulto”.

O uniforme é próprio para trabalhar em áreas onde haja uma grande concentração de pessoas.

— O objetivo é impulsionar essa tropa para um lugar de destaque na segurança pública — projeta o major Vinicius Carvalho, subcomandante e ex-integrante do Bope, que aceitou o desafio de trabalhar ao lado de Fábio Souza na reformulação do Choque.

O tenente Leonardo Novo completa o trio de caveiras no Choque. O chefe de instrução é o responsável pelos treinamentos da tropa, que estão fazendo com que os policiais adquiram técnicas que antes eram exclusivas da elite da Polícia Militar do Rio.

Na prática, o primeiro desafio do tenente-coronel Fábio Souza foi na ocupação policial na Rocinha. E a tropa surpreendeu. Lá, todo mundo era suspeito. As incansáveis abordagens “a tudo que se movia”, como lembrou o comandante, desestabilizaram o chefão da comunidade. A prisão de Nem foi a missão dada. E cumprida, sob o comando do caveira.

Tínhamos a informação de que ele estava na Rocinha quatro dias da ocupação. Aí, fechamos o cerco.

No dia anterior à prisão dele, o serviço de inteligência do Choque, em conjunto com a Secretaria de Segurança (Seseg) receberam a informação de que Nem tinha dois planos de fuga: ou sairia num táxi ou numa ambulância, com uma blusa preta e um rabo-de-cavalo.

— Ele (Nem) ficou sem saber o que fazer. Ele ia tentar sair da Rocinha. Senão, ia ser preso lá dentro.
Quando o homem que se identificou como cônsul de Gana se negou a abrir o porta-malas do carro, o tenente Disraeli Gomes ligou pela primeira vez para o comandante.

Quando ele disse que a placa não era do corpo consular, falei que ele teria que abrir o porta-malas. E determinei: “Vamos levar o carro até a Polícia Federal”. A missão foi cumprida. É guerra — lembra o tenente-coronel.


Força Militar: Repressão afeta preço de drogas


Ação militar das Forças Armadas na Fronteira elevou o custo das drogas no Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Segundo relatório apresentado pelo Ministério da Defesa à Vice-Presidência, o custo da pasta base de cocaína subiu 60% em Cáceres (MT) e 65% em Dourados (MS). No meio urbano, a ação repressiva fez a maconha ficar 100% mais cara em Cuiabá (MT) e em Campo Grande (MS).

Os dados obtidos por meio da inteligência conjunta das Forças Armadas e das polícias dos estados dão o tom do ataque ao tráfico de drogas que está sendo empreendido, com risco de vida para os 6.500 militares da Marinha, do Exército e da Aeronáutica empregados na ação. Chamada de Operação Ágata 3, a ação sufocou o tráfico apreensões de entorpecentes, forçando a alta de preços provocada pela escassez de produtos que, segundo um militar ouvido pela coluna, já será sentida pelo tráfico de drogas no Rio e São Paulo no início do ano que vem.

O relatório aponta para resultado prático do aumento da presença militar em massa nas fronteiras e, de forma diplomática, se torna ingrediente no momento que os quartéis brigam por reajuste dos soldos. A definição tem que sair semana que vem.

R$ 62 BI LIBERADOS
O relatório do resultado prático da maior presença militar nas fronteiras chegou à Presidência no mesmo dia em que governo comemorava a vitória no Senado, por 59 votos a 12, da proposta da prorrogação da Desvinculação das Receitas da União (DRU) até 2015. Na prática, a proposta libera o governo federal a gastar como bem desejar 20% de suas receitas, cerca de R$62,4 bilhões.


SILÊNCIO E CRÍTICAS

“O dinheiro que falta no orçamento para o reajuste dos soldos pode resultar dessa folga de caixa que vem da aprovação do Senado”, afirma um observador. Ele avalia que o desgaste que o governo vem sofrendo nas redes sociais visitadas por militares poderia ser minimizado com uma sinalização que o reajuste sairá no ano que vem, mesmo sem um índice definido. “O silêncio vem alimentando críticas e mais críticas”, diz.

REAJUSTE INDIRETO

Na discussão de bastidores em torno do reajuste dos soldos, mais um dado está surpreendendo. A contratação de militares da reserva para Tarefas por Tempo Certo, que resultam em ganho de 30% sobre o contracheque, está sendo usada como política salarial em unidades que vêm sofrendo com pedidos de baixa antecipada. Para manter o funcionamento, o TTC está servindo para atrair quem saiu.

domingo, 4 de dezembro de 2011

UPP da Rocinha vai ser a maior do Rio de Janeiro

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A Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, a 19ª da capital fluminense, vai ser a maior da cidade. O planejamento inicial prevê que 1.100 policiais militares ocupem as favelas da Rocinha e do Vidigal. Hoje, a maior é a UPP da Cidade de Deus, com pouco mais de 500 policiais militares, somadas as três bases da comunidade. Depois vem a da Mangueira, com 403 PMs.

O plano da Polícia Militar é que a UPP seja única para as duas comunidades. O comando ficaria na Rocinha, com um major. Uma outra base será instalada no Vidigal, onde haverá um capitão como responsável.

A Secretaria de Segurança estadual espera apenas a formatura dos novos policiais para destinar o efetivo. O coordenador das UPPs, coronel Rogério Seabra, fará a proposta do número de PMs na Rocinha à pasta.

Para isso, depende, além da da formatura de novos recrutas, do cumprimento da determinação judicial de preencher as vagas de todos os PMs de UPPs que devem transferidos para o interior do Estado, cerca de três mil. Só depois disso, as novas vagas em UPPs serão preenchidas.

A definição da data para a implantação da UPP será dada pelo Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), na Rocinha, e pelo Batalhão de Choque, no Vidigal. Enquanto isso, ambos ocupam as favelas. Equipes da Corregedoria da PM acompanharão este cerco inicial para evitar abusos ou desvios de conduta.

Policiais do 23º Batalhão de Polícia Militar (BPM), no Leblon, só estarão nas comunidades caso sejam solicitados pelo Bope ou pelo Batalhão de Choque.


Medo e apreensão

O próximo desafio do Estado será ocupar, no dia a dia dos moradores, o espaço que o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, e seu assistencialismo mantinham na região. Chefe do tráfico na região desde 2005, Nem explorava serviços clandestinos de gás, transporte alternativo e televisão a cabo.

Os moradores observam com desconfiança a mudança de comando. “Quando vocês (imprensa) forem embora é que o bicho vai pegar", disse um morador que não quis se identificar. Cássia Cristina Silva, 25, filmou a casa inteira com o celular por precaução. "Podem entrar, mas tem que deixar tudo no lugar". Outro carioca que pediu para não ter o nome divulgado afirmou que “o tráfico vai voltar. Nem era só um representante, quem manda ainda está aí”. (da Folhapress)


ENTENDA A NOTÍCIA

Embora a polícia tenha espalhado panfletos pedindo que a população denuncie criminosos, moradores dizem que não irão dar informações por medo de represálias. O desafio da UPP será resgatar a confiança na região.

SAIBA MAIS

A ocupação da Rocinha repercutiu até mesmo na imprensa internacional. O jornal espanhol El País, o britânico The Guardian, o argentino Clarín e a rede de TV norte-americana CNN foram alguns dos que acompanharam a ação em suas páginas na Internet.

A atenção à ocupação deve-se ao fato de a Rocinha ser uma das maiores do Rio, considerada peça-chave na pacificação do estado.

Luta por dignidade: PM ferido depende de vaquinha para ter cadeira de rodas

O soldado Alexsandro Fávaro, de 31 anos, era tido como policial exemplar. Um apaixonado no combate ao crime, como os colegas de farda costumam dizer. Há três meses, o combate mudou de terreno. Atingido no pescoço num tiroteio entre policiais da UPP Fallet/Fogueteiro e traficantes no Morro do Fogueteiro, no Rio Comprido, ele faz sessões de fisioterapia no Hospital da Polícia Militar (HPM) para recuperar os movimentos dos membros. E conta com a luta de outros policiais militares.

Como o major Hélio, que lançou uma campanha no site cfappmerj.org para pedir colaborações de R$ 1, que ajudem na aquisição de uma cadeira de rodas de R$ 2.500, específica para tetraplégicos. “A esposa continua assistindo e apoiando o marido e está impossibilitada de trabalhar, pois o caso dele ainda inspira cuidados”, diz um dos trechos do texto. Segundo o comunicado, a PM não possui a cadeira de rodas e a aquisição pode levar até seis meses. O problema é que o soldado Fávaro terá alta em breve.

O major Hélio não é o único que busca mobilização para ajudar no caso. De acordo com o capitão Felipe Magalhães, comandante da UPP Fallet/Fogueteiro, o grupo de policiais que se formou com Fávaro também faz contribuições para ajudá-lo. Amigo do soldado, o capitão foi instrutor no seu curso de formação. E comandante no período em que Fávaro atuou na UPP.

Ele era um excelente policial. Adorado por todos, porque era um profissional que sabia a hora de combater, mas também sabia o momento certo para prestar serviço aos moradores.

Na corporação há apenas três anos, Fávaro colecionava prisões e apreensões num caderno recheado por recortes de ocorrências e reportagens policiais. Em março de 2009, quando trabalhava no 12 BPM, em Niterói, e ainda não estava habilitado para usar arma, recebeu um certificado de honra ao mérito por ter “se destacado no combate à criminalidade” por prender um suspeito só com o cassetete.

OUTRO DRAMA

Em novembro do ano passado, o sargento Heliomar Ribeiro dos Santos Silva, de 36 anos, viu a morte de perto no cruzamento da Avenida dos Democráticos com a Dom Hélder Câmara, no Jacarezinho. Ele estava numa viatura do 22 BPM (Maré) quando cruzou por um bonde de 20 homens, com fuzis em carros e motos.
 
O veículo foi fuzilado e o soldado caiu no chão, baleado. Só saiu de lá com vida porque foi tirado do asfalto por um taxista, que o socorreu no momento em que um ônibus parou na sua frente, impedindo o acesso dos bandidos.

Um ano depois, Heliomar ainda luta para se recuperar das sequelas provocadas pelos tiros, que acertaram a sua nuca, de raspão, o braço e o pé esquerdos. Três vezes por semana, faz fisioterapia para recuperar os movimentos do braço. Perdeu o dedão e caminha com dificuldades, já que não encosta a sola do pé no chão, porque um nervo foi atingido.

A situação financeira da família também não é das melhores, já que Heliomar fazia “bicos” para completar a renda familiar quando estava na ativa. Como não pode dirigir, vendeu o carro, um Fiat Uno antigo.

Morador de Itaboraí, ele desistiu das sessões de fisioterapia mantidas pela PM, em Olaria, no Rio, porque não teria como pagar o deslocamento semanal. Optou pelo tratamento num hospital público, perto de casa. Apesar das dificuldades, ainda acredita que um dia poderá voltar a vestir a farda da Polícia Militar.

Ele não se conforma, porque estava acostumado a estar na ativa — conta a mulher, a dona de casa Cristiane Santos Silva, de 37 anos.

Mas nada causa revolta em Cristiane. Porque o marido vai poder ver a filha, de 3 anos e 9 meses, crescer. E, de tempos em tempos, ela telefona para o taxista que salvou o seu marido.

Ligo pra agradecer. Depois de Deus, ele é o meu anjo da guarda, porque salvou o meu marido. Vou agradecer pelo resto da minha vida.
 
 
RELEMBRE O TRISTE EPISÓDIO
 
 
 Mulher de soldado ferido no Morro do Fogueteiro está ‘morando’ no CTI para cuidar do marido
Notícia de 21/09/11

Há duas semanas, o CTI do Hospital Central da Polícia Militar (HCPM) virou a segunda casa da família do soldado Alexsandro Fávaro Rocha Coutinho, de 31 anos. Baleado no pescoço na tarde de 10 de setembro, no Morro do Fogueteiro, Rio Comprido, o policial da UPP pode ficar tetraplégico. Ele conta com o apoio da mulher e dos pais, que passam os dias no hospital.

Fávaro também foi atingido no peito, mas usava colete. O ferimento na traqueia ainda o impede de falar, mas o policial consegue se expressar pelo movimento dos lábios.

Ele está lúcido e fica impaciente quando alguém não entende. Não está revoltado, porque estava fazendo o que gosta de fazer. Acredito na recuperação dele — comenta a mulher, uma técnica em enfermagem de 29 anos, que "mora" no hospital desde o acidente.

Além dos familiares, o soldado Fávaro conta com a solidariedade de colegas.

Na semana passada, a visita de um PM fardado, com 1,90 m, chamou a atenção no corredor do CTI. Com os olhos arregalados, retirou a boina, inclinou a cabeça e perguntou:

Posso visitar o soldado Fávaro?

Com a autorização da família, o PM entrou no CTI. Saiu de lá desorientado. Depois, escorou a cabeça na parede e foi consolado por outro policial.

Na corporação há três anos, Fávaro era apaixonado pelo combate ao crime. Tinha polícia no sangue, como os colegas dizem. Em março de 2009, quando trabalhava no 12º BPM, em Niterói, e ainda não estava habilitado para usar arma, recebeu um certificado de honra ao mérito por ter "se destacado no combate à criminalidade" por prender um suspeito apenas com o cassetete.